Wednesday, March 8, 2006

Conferencia na EGP (Universidade do Porto)

A convite da Escola de Gestão do Porto (EGP-Universidade do Porto) realizamos, no próximo dia 23 de Março, uma conferência sobre NEUROMARKETING dirigida aos alunos de MBA Mestrados e de MBA Executivos.

Também o Instituto Politécnico de Leiria acaba de nos endereçar um convite para uma intervenção no dia 11 de Abril sobre o papel das emoções nas decisões de cariz económico.

 

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Questões pertinentes

>> Recebi dois emails do mestre Paulo Vieira de Castro. Os temas colocados são complexos e tenho dificuldade em responder-lhe por absoluta falta de tempo. Mas os temas são pertinentes e deixo-vos à vossa consideração. 

Caro Nelson Lima,
 
Em primeiro lugar deixe-me dar-lhe os parabéns pelo seu trabalho. (…) Eu interesso-me pelo Neurobusiness desde há algum tempo por duas razões de força:

1) Sou mestre em marketing, leccionando presentemente matérias como o comportamento do consumidor, a gestão de marketing e a auditoria de marketing;

2) Estou a fazer a minha tese de doutoramento na UM em semiótica. Onde trato temas como o poder, a tecnologia e como não poderia deixar de ser a comunicação. Em determinada fase da minha tese procuro debater o que é anterior à ideia de  poder nos Homens ( o primeiro impulso ). Comecei pelos filósofos ocidentais (passando, naturalmente pelos que glosaram a filosofia oriental) e acabei a estudar sânscrito (que por ser a mais antiga estrutura linguística deverá estar mais perto das ideias originais de vontade de poder), passando pelo hinduísmo e pelo budismo, já que a religião/filosofia serão, para mim, a primeira manifestação de poder do ser humano. Já agora adianto-lhe que defendo que a tecnologia é um erro, inserindo-se dentro da arquitectura do erro da humanidade, pelo que questiono o próprio neuromarketing em termos de mente (não em termos de cérebro).

Mas, o que me leva a contactá-lo está para além do neuromarketing e mesmo da e-therapy. Em tempos escrevi um artigo introdutório à matéria. Passados alguns (muitos) meses, quando reli o artigo finalmente impresso, notei que havia uma questão que ninguém tinha tratado, talvez porque a resposta não se encontre simplesmente nos impulsos eléctricos, ou talvez aqui resida a diferença entre mente e cérebro. O que está em análise (invariavelmente) é a questão da reacção da amostra quando visiona a marca XX, ou um dado acontecimento; contudo eu gostaria de saber o que é que acontece quando eu mentalizo esta mesma marca (XX) sem a ver? Que áreas do cérebro acendem? São elas coincidentes com as que se acendem quando eu vejo a marca XX?  E se eu fizer esta mesma experiência com pessoas cegas? O que é que acontece? A visão exterior será um atenuador (véu) da nossa própria consciência?

(…) O meu interesse reside na questão do poder pela compra, ou seja tenho uma teoria a propósito de como se concebe a moderna  identidade; a  que se cria em torno da compra. Inicialmente a identidade era referenciada de acordo com a família de origem, depois com os marxistas evidenciou-se a função, e modernamente, eu acredito que, a identidade é evidenciada, em muito,  pelo estilo de consumo do individuo, daí o poder ( o reconhecimento do outro )  pela compra ( não confundir com o poder de compra ).
De facto é a questão do instinto que mais me interessa. Confesso que não acredito no instinto, mas sim em programação. Brincar à ciência é uma panaceia, onde todos os sortilégios são bem vindos..  Felizmente não estou sozinho neste meu caminho!

Chomsky dizia que todas as linguagens (menu) estavam disponíveis no cérebro da criança, ou seja nós nascemos a “saber todas as línguas”, tal ideia poder-nos-á levar  a uma outra que é a da programação (longe das elaborações de Searl, a propósito da comparação entre mente e computação). A acreditar que tudo que é reptilário é programação  poderemos pensar que:  

1)      A realidade reside num outro ponto de partida e não na evidência dos sentidos clássicos e muito menos depende da racionalidade?

2)      A liberdade não faz parte da natureza primeira da coisa humana? Muito embora possa residir na força está na origem deste grande laboratório que é a humanidade.
3)      A tecnologia é um erro de especialização humana uma vez que tem o seu fim próximo, isto porque só vai até à dimensão dos nossos cinco sentidos? O Hubble já vê melhor que o olho humano,.., mas mantêm-se nessa mesma dimensão física…

Veja o exemplo do sólido e do liquido; o que a visão nos pode enganar. A cadeira de madeira em que estado está? Não, os quarks residem num ambiente que não se insere dentro desta lógica. Alógica está errada? É tudo uma questão de ponto de medida. Esta é uma questão que nos leva à próxima pergunta.

 4)      A acreditar na programação tudo o que é ; já era, ou seja, tudo o que vemos, e mesmo o que imaginamos, já existia anteriormente  num outro ponto da nossa “realidade” (interior/anterior)?

5)      Para os puristas do marketing (excluindo alguns casos pontuais como o de Levit – o do miopia em  marketing, ou mesmo  o Kotler, exclusivamente, na sua    obra “Megamarketing”) as suas estratégias e técnicas não visam induzir as pessoas ao consumo. A necessidade já lá está, sendo apenas os consumidores alertados para a existência de novas hipóteses de exercício consumista (poder pelo consumo). A manifestação de poder pela compra será então algo que reside no inconsciente humano (quanto inconsciente?), sendo mais uma das variáveis endócrinas do jogo? Falta saber qual é a equipa que representamos..

Paulo Vieira de Castro

>> O Paulo, nos dois emails que me endereçou, colocou imensas questões (muito pertinentes) que são impossíveis de responder no curto espaço (e no tempo útil) disponível neste blog. Mas reproduzo a resposta que dei ao segundo email (mais uma vez uma resposta muito, muito incompleta).
 
(…) Vejo que está a entrar nos domínios da cada vez mais fervilhante filosofia da mente e gostaria de lhe responder de imediato. Só que o tema é vasto e carregado tanto de espaços em branco como de armadilhas prontas a rebentarem com presunções científicas.
Alguém escreveu que no dia em que compreendêssemos completamente a nossa mente entraríamos em extinção de imediato. Isto quer dizer que a compreensão total e inequívoca dos fenómenos mentais exige um modelo de cérebro que não é o nosso! Na verdade, temos o território (o cérebro) mas não temos o mapa que o explique sem erros(a mente).
 
A leitura que fazemos (ou o entendimento que temos) dos processos mentais humanos estão profundamente enformados (de “forma”) de crenças antigas. O edifício do nosso conhecimento acerca de algo que não se vê (a mente) está assente em alicerces que parecem cada vez mais inadequados para aceitar a obra pronta. E , por isso, o edifício, embora cheio de obreiros, não esconde os muitos buracos (ignorâncias) que lhe dão uma particular arquitectura. E, por isso, é um campo aberto a todas as abordagens e leituras possíveis. Mas continua sempre em aberto a eterna pergunta: o que nos leva a tomar as decisões? Sabemos (sabemos?) que o cérebro é pró-activo e que a mente está sempre envolvida no “momento seguinte” mais do que no “momento presente”. Assim sendo, como se interpretam as decisões? Bem, isto levar-nos-ia muito longe (…)

Nelson S Lima

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Sunday, March 5, 2006

A Dinâmica da Espiral

O mundo deste início do século XXI é, mais do que nunca, plural. Um número considerável de seres humanos habita regiões cultural  e socialmente distantes e diferentes das sociedades ditas industrializadas. Na própria sociedade ocidental biliões de cidadãos, ainda que mergulhados em hábitos e compor-tamentos de consumo de massa, com acesso aos mais diversos produtos e serviços, situam-se em níveis de evolução diferentes tendo do mundo e do futuro (seus e da sociedade)  visões e expectativas muito diversas.

Esta miscelânia de “mundos” e de “visões e expectativas” distintas confere ao nosso planeta múltiplas dimensões e desenhos da realidade humana. O tema foi pela primeira vez abordado pelo professor de psicologia americano Clare W. Graves, nos anos 60, tendo sido posteriormente desenvolvido por Don Edward Beck e Christopher C. Cowan. Actualmente, nomes como Ken Wilber, uma das mentes mais brilhantes do nosso tempo, adoptaram o seu modelo de compreensão do mundo. Dois livros se destacam pelos seus contributos decisivos no seu esclarecimento e promoção: Spiral Dynamics, de Beck e Cowan (1996) e A Theory of Everything, de Ken Wilber (2002), publicados em Portugal respectivamente pelo Instituto Piaget e pela Editora Estrela Polar.

Baseados no trabalho pioneiro de Clare Graves, Beck e Cowan propuseram um modelo de desenvolvimento humano que, devido à sua configuração, recebeu o nome de Dinâmica da Espiral. Este modelo tem sido validado e não refutado por diferentes pesquisas. Segundo este modelo, o ser humano nasce no estádio 1 e pode evoluir até ao estádio 9 dependendo essa evolução de múltiplos factores psicológicos, culturais e sociais. Escreveu Graves: “é um processo espiralado, emergente, oscilante, marcado por uma progressiva subor-dinação de sistemas de comportamento mais antigos e de ordem inferior a sistemas mais recentes, de ordem superior, que ocorre à medida que os problemas existenciais de um indivíduo se alteram“.

A existência humana, segundo Graves, contem numerosos, provavalmente infinitos, modos de ser, enraizados precisamente nos imensos potenciais do cérebro hierarquicamente estruturado da humanidade. Mas a dinâmica humana faz com que diferentes indivíduos estejam a viver em diferentes níveis de percepção, visões do mundo e estilos de vida. Num mesmo país, numa mesma rua, encontramos indivíduos cujo estádio de desenvolvimento se distingue dos seus vizinhos, se bem que a tendência seja para se agruparem em função da partilha dos mesmos sistemas de crenças, valores, visões e níveis de existência.

Assim, cada um dos sucessivos estádios, ondas ou níveis de existência é uma condição pela qual as pessoas passam no seu percurso rumo a estádios de existência distintos, com psicologias próprias e ajustadas a cada nível: sentimentos, motivações, ética e valores, bioquímica, grau de activação neurológica, sistema de aprendizagem, sistemas de crenças, conceito de saúde mental, conceitos e preferências relativamente a negócios, educação, economia e teoria e prática políticas (Graves,1984).

Beck e Cowan desenvolveram então o conceito de vMEME tendo como ponto de partida o termo “meme” proposto por Mihaly Csikszentmihaly em 1993. Um vMEME é um meta-meme, isto é, um princípio organizador da existência humana que actua nas nossas mentes através de crenças, estilos de vida, tendências de linguagem, normas culturais, formas de arte, expressões religiosas, modelos económicos, etc. Os vMEME codificam instruções para as nossas perspectivas do mundo, as suposições de como tudo funciona e a fundamentação lógica para as decisões que tomamos. Os vMEME representam as influências ambientais (culturais, sociais, educacionais, etc) que moldam não apenas as nossas mentes como as próprias células do cérebro. Eles circulam profundamente nos sistemas humanos e pulsam no centro das escolhas e da inteligência de cada indivíduo. São um produto da interacção do equipamento nos nossos sistemas nervosos com o ambiente e as condições de existência (onde se destacam o tempo, o lugar, os desafios e as circunstâncias) que enfrentamos.

Os vMEMES actuam a três níveis distintos: indivíduos (modelando as suas vidas e os seus valores, da sobrevivência mais básica no aldeão global até ao mais inacessível pensador); as organizações (determinando o seu sucesso ou o seu fracasso no mercado competitivo); e as sociedades (locais ou nacionais) que seguem modelos de existência dependentes de vMEMES com diferentes sentidos (democrático, conservador, etc).

O modelo da Dinâmica da Espiral foi já testado em mais de 50 mil pessoas de todo o mundo e mantem-se válido. Ele apresenta-se, graficamente, com este aspecto:

Wilber divide a espiral em dois grandes estádios: o primeiro contempla os níveis mais inferiores de desenvolvimento psicológico e onde se situa a maioria da população mundial (das nações, dos governos, das empresas); o segundo abrange os níveis mais evoluídos e contempla um número mais restricto mas psicologicamente e culturalmente poderoso.

São nove os níveis de evolução humana propostos por Ken Wilber com base no modelo inicial de Graves e conforme a predominância dos vários vMEMES:

  • Nível 1 (prevalece o instinto de sobrevivência, a prioridade é dada aos alimentos, ao calor, ao sexo e à segurança). Encontra-se ainda, segundo Wilber, em 0,1% da população adulta mas também se observa em todos os bebés recém-nascidos, nos sem-abrigo, nas massas de população faminta do Sudão e de outras regiões inóspitas.
  • Nível 2 (predomina o pensamento animista). Estão neste estádio cerca de 10% da população e pode ser encontrado nos gangs, nas “tribos” corporativas, nas populações devotadas a rituais mágicos, pactos de sangue, crenças e superstições étnicas de cariz mágico.
  • Nível 3 (mentalidade feudal). Encontram-se neste nível cerca de 20% da população adulta mundial e 5% do poder está nas suas mãos. Pertencem a este nível reinos feudais da Ásia muçulmana, líderes de gangs, juventude rebelde, crianças entre os 2 e os 3 anos de idade e mentalidades de fronteira (lutam sobretudo pela posse de territórios).
  • Nível 4 (mentalidade conservadora e corporativa). 40% da população adulta mundial vive neste nível de existência e detem 30% do poder. São exemplos a América puritana, a antiga China confucionista, o judaísmo hassídico, o fundamentalismo religioso cristão e islâmico, grupos como o Exército da Salvação, os escuteiros e ideias como o patriotismo, organizações corporativas, ordens (Malta, Maçonaria, etc).
  • Nível 5 (mentalidade racional-materialista). Encontra-se em 30% da população que detem 50% do poder actual. Indivíduos e sociedades altamente orientadas para os resultados: Wall Street, classes médias emergentes no mundo ocientalizado, colonialismo, indústria da moda, etc.
  • Nível 6 (ecológico e comunitário). Neste nível vivem cerca de 10% da população que detem 15% do poder. Sensíveis ao equilíbrio ecológico, contra as hierarquias estabelecidas, as pessoas que estão neste estádio são fortemente pluralistas, defendem o multiculturalismo e a igualdade. Encontram-se nos movimentos ecologistas, no idealismo holandês, nas organizações não-governamentais como os Médicos Sem Fronteiras, nos partidos “os verdes” da Europa, etc.
  • Nível 7 (integrador). Um por cento da população, com cinco por  cento de poder situam-se neste nível. Defendem um mundo sem fronteiras, igualitário, transcendente, solidário. A flexibilidade, a espontaneidade e a funcionalidade têm prioridade máxima. Exemplos: a Teoria do Caos, a “nova física” de Fred Allan Wolf, ensinamentos de Deepak Chopra.
  • Nível 8 (holístico, visão global). Apenas 0,1% da população está neste estádio e detem 1% do poder. Crença principal: o mundo é um único organismo dinâmico, com a sua própria mente colectiva. Exemplos: o conceito de “aldeia global” de McLuhan, as ideias de Gandhi de harmonia pluralista, os ensinamentos do filósofo Ken Wilber, a “hipótese Gaia” de James Lavelock e a “noosfera” de Pierre Teilhard de Chardin. O mais brilhante filósofo da actualidade - Ken Wilber - cujos ensinamentos são um exemplo do nível 8 defende um próximo estádio, o 9º:
  • Nível 9: (integral e holónico). Estará lentamente a emergir em alguns (poucos) núcleos. Wilber, em A Theory of Everything defende uma nova humanidade que altere radicalmente velhos paradigmas e conflitos despertando nos indivíduos o aproveitamento integral das potencialidades humanas. O núcleo central deste “movimento para cima” situa-se no Instituto Integral (Estados Unidos) e tem atraido personalidades e investigadores de distintas disciplinas tais como David Chalmers, Howard Gardner (teorizador das Inteligências Múltiplas), John Searle (conhecido estudioso do fenómeno da consciência), o físico Ervin Lasszlo, Francisco Varela (entretanto falecido), Larry Dossey, etc.

Cada um destes níveis é influenciado por vMMES poderosos aos quais de atribuiram cores como forma de melhor identificação. Assim, temos:

  • Nível 1 - Bege
  • Nível 2 - Púrpura
  • Nível 3 - Vermelho
  • Nível 4 - Azul
  • Nível 5 - Laranja
  • Nível 6 - Verde
  • Nível 7 - Amarelo
  • Nível 8 - Turquesa
  • Nível 9 - Coral

INDICAÇÃO SUMÁRIA DOS CÓDIGOS DAS VISÕES DO MUNDO (vMEME)

Estratos psico-culturais
Nível Código da cor Nome popular  Pensamento  Manifestações culturais e expressões pessoais
Nível 8 turquesa Visão Global  Holístico individualismo colectivo; espiritualidade cósmica; mudanças da Terra
Nível 7 amarelo  Flexível Ecológico sistemas naturais; múltiplas realidades; conhecimento
Nível 6 verde  Fraternidade  Consensual igualitarismo; autenticidade; partilha; comunidade
Nível 5 laranja  Esforço Estratégico materialista; consumerismo; sucesso; imagem; status; poder
Nível 4 azul  Força de vontade  Autoridade disciplina; tradições moralismo; regras 
Nível 3 vermelho  Deus do Poder  Egocêntrico gratificação; conquista; acção; impulsividade
Nível 2 púrpura Espírito de parentesco  Animista ritos; rituais; tabus; superstições; tribos.
Nível 1 bege Sobrevivência Instintivo alimento; água; procriação; calor; protecção.

Os vMEMES e os diferentes tipos de existência levados pela humanidade conduzem a distintas visões do mundo e do futuro. Elas podem ser vistas de forma sumária neste quadro relativamente aos pretextos para a intervenção armada e outros conflitos:

 

Visões do mundo ou vMEMES de conquista
e razões para envolvimento em conflitos.
Cor Forma política  Motivos para intervenção armada 
Bege Clãs para manter a sobrevivência tal como se pode ver no filme The Quest for Fire
Púrpura Tribos para proteger mitos, tradições ancestrais e lugares sagrados
Vermelho  Impérios feudais 

para dominar, alargar territórios, pilhar, estabelecer novos domínios

Azul  Nações antigas 

proteger fronteiras, a mãe-pátria, preservar modos de vida, defender causas nacionais 

Laranja  Estados corporativos criar novas esferas de influência ou aceder a novos recursos e mercados
Verde  Comunidades de valores 

punir os que atentam contra a humanidade, proteger as vítimas

Graves não hesitou em afirmar que os sistemas humanos reflectem diferentes níveis de activação do nosso equipamento neurológico dinâmico, isto é, a produção química do nosso cérebro, complexos grupos de células e biliões de potenciais ligações neurológicas (Graves, 1973). Para Graves, o cérebro humano vem com um software potencial - como sistemas à espera de serem ligados - upgrades latentes.

Será então o nosso cérebro capaz de evoluir mais? Parece que sim, embora alguns neurobiólogos insistam em defender a tese que o homo sapiens sapiens atingiu os limites de evolução biológica possível. A verdade é que, desde tempos imemoriais, a mente não parou de evoluir. E este é um território imenso e ainda parcialmente utilizado. Desde o homo sapiens “survivalus”, há 150 mil anos atrás, até ao “holisticus” de há apenas 30 anos, a mente não parou de se expandir e evoluir (vertical e horizontalmente) e isso deve-se também à neuroplasticidade das redes de células nervosas (100 mil milhões em cada ser humano) e da arquitectura cognitiva.

Desde que o cérebro humano seja provido das seguintes condições, a mente constinuará a transformar-se e a progredir (Beck & Cowan, 1996):

  1. Um conjunto amplo de instruções, provavelmente codificadas no nosso ADN, que nos equipa para despertar novos sistemas que se vêm juntar ou até mesmo substituem antigos.
  2. As forças dinâmicas geraram-se na natureza e na criação que despoletam sistemas específicos (os sistemas cerebrais interagem para modelar a pessoa).
  3. A capacidade do cérebro humano de albergar um número de subsistemas simultaneamente, com alguns activos e outros relativamente passivos.

Em evolução ainda? Sem dúvida que as múltiplas frentes de transformação com que nos debatemos - seja qual for o nível psicológico, cultural e espiritual de existência em que nos situemos - continuarão a exercer fortíssimas influências sobre o nosso cérebro resultando uma mente que gradualmente se modifica. Basta para tanto pensar como as crianças de hoje parecem ser  mais inteligentes do que as de gerações anteriores ou observar a premência do fenómeno índigo. 

A complexidade da informação que em torrentes sólidas chega aos nossos cérebros bem como a diversidade de vivências e experiências que um número crescente de pessoas recebe está a modificar as nossas vidas, as nossas mentes e as nossas ideias. O futuro, não obstante, é plural tal a diversidade de níveis de desenvolvimento, valores,  crenças e conhecimentos que se observam por todo o planeta.

(*) Síntese da minha intervenção a apresentar no Congresso Internacional de Criatividade, em Chicago. Sobre a mente humana consultar www.territoriosdamente.blogspot.com, www.neuroimagens.blog.com e www.nelsonlima.blog.com.

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Tuesday, February 7, 2006

Uma visão sobre…

A NEUROECONOMIA
por Robert Anton Wilson

A sociedade deriva do sexo, das relações reprodutivas. Enquanto unidades de trabalho, os primeiros bandos tribais humanos mantiveram-se unidos pelos laços entre casais e grupos mamíferos (as emoções impressas de afeição e confiança). No centro, o eixo central, encontrava-se a ternura orgâsmica – acto partilhado, no acasalamento, do amor genital. Dele irradiou a ternura “sublimada” da relação entre pai e filho, irmão e irmã, e tios, tias e avós, toda a “família alargada”, ou bando caçador/coletor de alimentos.

O Estado conquistador, e a subsequente fissão da sociedade em classes distintas de privilegiados e carentes, criou a pobreza. Enquanto instituição humana, a pobreza deriva da conquista, da formação de governos (o bando guerreiro invasor que ficava para reger as suas conquistas) e da instituição de “leis” perpetuando a divisão classista entre Invasores e Invadidos.

Como qualquer outro primata, o ser humano contém circuitos neurogenéticos prontos para serem impressos por laços de casal e laços de bando. O objectivo evolucionário destes laços continua a ser classicamente mamífero: assegurar a bio-sobrevivência e o status do bando, além de programar a maioria das sementes com os comportamentos heterossexuais-reprodutivos necessários à sobrevivência do bando, o que assegura por sua vez a biossobrevivência das gerações futuras.

A ascensão do Estado conquistador, o Estado feudal, e eventualmente do Estado capitalista moderno, minou e subverteu progressivamente os laços tribais de bando (“a família alargada”). Na nação capitalista mais avançada, os EUA, restam muito poucos destes laços tribais. Muito poucos cidadãos americanos se deterão para dar boléias ou esmolas aos pobres, não confiando sequer nos vizinhos. A maioria nem sequer conhece os vizinhos. Os comportamentos normais de bando, como a confiança, a solidariedade, a afeição, etc., passíveis ainda de serem encontrados nas nações feudais, encontram-se aqui atrofiados. A raiz das célebres “anomias”, “ansiedades”, “alienações”, etc., da sociedade capitalista encontra-se nesta ausência de normais laços de bando.

Falando em termos etológicos, os circuitos onde normalmente são impressos os laços de bando sobrevivem ainda. (poderíamos exprimir o mesmo pensamento em linguagem psicológica dizendo que a necessidade de assegurar a biossobrevivência se mantém ainda). Esta constante mamífera deve ser satisfeita, e numa sociedade abstracta essa satisfação torna-se também abstracta.

Na sociedade capitalista, o dinheiro de papel torna-se a impressão da bio-sobrevivência.

William S. Burroughs comparou o capitalismo ao vício da heroína, assinalando os terríveis paralelos: o junkie precisa de doses regulares; o cidadão capitalista precisa igualmente de receber injeções regulares de dinheiro. Se não tiver droga, o viciado transforma-se num feixe espasmódico de ansiedades; se não tiver dinheiro, o cidadão capitalista atravessa um trauma de carência em tudo semelhante. Quando a droga escasseia, os junkies comportam-se de forma desesperada, chegando ao ponto de roubar e mesmo matar. Se o dinheiro escasseia, o cidadão capitalista também é capaz de roubar e matar.

Segundo o dr. Timothy Leary, as drogas opiáceas funcionam como neurotransmissores do circuito da bio-sobrevivência, isto é, activam as redes neuronais relacionadas com os laços mãe-filho. (Em termos de psicologia freudiana pré-neurológica, o junkie regressa ao êxtase infantil no regaço da Mãe Ópio). Numa sociedade desprovida dos normais laços mamíferos de bando, o dinheiro é sujeito a uma impressão semelhante, através do condicionamento, sobre os reflexos infantis, de uma série de associações aprendidas. O cidadão capitalista aprende neurologicamente que dinheiro equivale a segurança e falta de dinheiro equivale a insegurança.

Muito cedo na evolução hominídea, a ansiedade da separação infantil (o medo de perder a Mãe toda-importante) generalizou-se à ansiedade da separação tribal. Quem fosse expulso da tribo por comportamento delinqüente ou anti-social experimentava verdadeira ansiedade de biossobrevivência. (Em condições primitivas, uma tribo possui uma capacidade de sobrevivência muito superior à de um indivíduo só. À época, o ostracismo significava geralmente a morte, assim como o ostracismo da mãe pode significar a morte da criança.)

Já que, na sociedade capitalista, o dinheiro substituiu a tribo, a maioria dos cidadãos imprimiu no dinheiro as emoções mamíferas tradicionalmente associadas aos laços de sobrevivência filho-mãe e dos bandos individuais. Esta impressão é mantida por associações condicionadas criadas por experiências de privação real. Nas sociedades capitalistas, antes de surgir a segurança social as pessoas morriam mesmo, e em grande número, por carência de dinheiro; ainda hoje isso sucede ocasionalmente entre os muito ignorantes, os muito tímidos ou os muito velhos. (Por exemplo, há alguns anos, um casal idoso da cidade de Buffalo morreu congelado no mês de janeiro, quando a companhia local lhes corou o aquecimento por falta de pagamento da conta de eletricidade.)

A observação, que fazem os europeus, de que os americanos são “loucos por dinheiro” significa simplesmente que a abstração capitalista e o declínio da tribo se encontram mais avançados aqui do que nos estados capitalistas europeus.

Carente de dinheiro, o americano vagueia como um lunático possesso. A “ansiedade”, a “anomia”, a “alienação”, etc., vão crescendo exponencialmente, reforçadas por reais privações de segurança. Nas sociedades menos abstratas, os pobres partilham os laços de bando e “amam-se” uns aos outros (a nível de aldeia). Carentes de quaisquer laços de bando, e viciados apenas em dinheiro, os americanos pobres odeiam-se uns aos outros. Isto explica a observação paradoxal, que muitos comentaristas fizeram, de como nas sociedades tradicionais a pobreza conserva ainda a sua dignidade e mesmo algum orgulho, mas surge na América como desonrosa e vergonhosa. Na realidade, os americanos pobres não se odeiam apenas uns aos outros; frequentemente, e talvez em geral, eles odeiam-se a si próprios.

Esses factos da neuroeconomia encontram-se de tal forma carregados de dor e embaraço que a maioria dos americanos se recusa pura e simplesmente a discuti-los. O puritanismo sexual do século XIX transformou-se no puritanismo monetário. Pelo menos entre o terço mais avant da população, as pessoas conseguem falar muito explicitamente sobre as vertentes fetichistas das suas impressões sexuais (“Sinto-me pleno quando uso a roupa interior da minha mulher”, ou coisas do gênero), mas uma fraqueza equivalente sobre as nossas necessidades monetárias faz gelar a conversa, podendo mesmo esvaziar a sala.

Por detrás do embaraço e dor superficiais encontra-se o terror mamífero máximo: a ansiedade da bio-sobrevivência.

A mobilidade das sociedades modernas faz aumentar ainda mais esta síndrome de ansiedade monetária. Durante a depressão dos anos 30, por exemplo, muitas mercearias e outras “lojas de esquina” permitiram aos seus clientes a acumulação de grandes contas, por vezes durante meses a fio. Este procedimento baseava-se nos últimos farrapos dos tradicionais laços tribais e no facto de, nessa altura, há 40 anos, quase toda a gente das mesmas redondezas se conhecer. Hoje isso não aconteceria. Vivemos, como diz um romance, “num mundo cheio de estranhos”.

No primeiro capítulo de The Confidence Man, Melville contrasta o “fanático religioso” que carrega um cartaz dizendo “AMAI-VOS UNS AOS OUTROS” comos comerciantes cujos avisos dizem “NÃO FAÇO FIADO”. A idéia desta ironia era fazer-nos reflectir sobre a inquieta mistura de cristianismo e capitalismo na América do século XIX – cristianismo esse que, como o budismo e as outras religiões pós-urbanas, parece ser em grande medida uma tentativa, a nível místico, de recriação dos laços tribais no seio da era “civilizada” (isto é, imperialista). A segurança social representa a tentativa de falsificação desses laços por parte do Estado (de forma mesquinha e paranóica, de acordo com o espírito da lei capitalista). O totalitarismo surge como a erupção, possuída de fúria assassina, da mesma tentativa de converter o estado num nexus tribal de confiança mútua e apoio à biossobrevivência.

Quando a filosofia libertária surgiu na América, ela representava duas tendências principais, que os libertários modernos parecem ter esquecido – imprudentemente, caso se provar a justeza da análise acima feita. Refiro-me à ênfase na associação voluntária – a retribalização a um nível superior, através de objectivos evolucionários partilhados – e nas moedas alternativas. As associações voluntárias, ou comunas, desprovidas de moeda alternativa são rapidamente absorvidas pelo nexus da moeda capitalista. As associações voluntárias dispondo de moeda alternativa, abertamente declarada, são empurradas para os tribunais e destruídas. É possível que, tal como acontece em Illuminatus!, existam realmente associações voluntárias usando moedas secretas ou dissimuladas, a julgar por indícios ou códigos em algumas publicações libertárias de direita.

Nas condições presentes, nenhuma forma de libertarianismo ou anarquismo (incluindo o anarco-capitalismo e o anarco-comunismo) pode competir eficazmente com o estado do bem estar social (welfare state) ou o totalitarismo.

As práticas actuais do bem estar social resultaram de 70 anos de lutas entre liberais e conservadores, tendo estes últimos vencido a maioria das batalhas. O sistema funciona de modo a fazer crescer a síndrome do vício. O desempregado recebe uma pequena dose de dinheiro no princípio do mês, muito bem calculada para sustentar um averento extremamente frugal até por volta do dia 10 desse mês. Mediante a dura experiência, o beneficiário do bem estar social aprende a fazer render a dose até o dia 15, ou talvez mesmo até o dia 20. O resto do mês é passado sofrendo de aguda ansiedade de bio-sobrevivência. Como qualquer traficante ou condicionador comportamental sabe, este período de privação é que sustenta o ciclo todo. No primeiro dia do mês seguinte vem outra dose de dinheiro, e todo o drama recomeça.

O rol de beneficiários do desemprego não pára de crescer, já que – apesar da maior redundância e ineficácia – a tendência do industrialismo continua a ser, como diz Buckminster Fuller, fazer-mais-com-menos e a tudo-tornar-efêmero (omni-ephemerize). A cada nova década, haverá cada vez menos empregos e cada vez mais pessoas dependentes do bem estar social. (Já hoje, 0,5 por cento da população detém setenta por cento da riqueza, deixando os outros 99,5 por cento para competirem violentamente pelo restante). O resultado final poderá muito bem ser uma sociedade totalmente condicionada, motivada apenas pelo vício neuro-químico do dinheiro.

Para medir o seu progresso em direcção a este estado, tente o leitor imaginar vividamente o que faria se amanhã todo o seu dinheiro e fontes de rendimento desaparecessem.

É importante termos bem presente que estamos aqui a discutir comportamentos mamíferos tradicionais. Em pesquisas recentes, alguns chimpanzés foram ensinados a usar dinheiro. Indicam os relatórios que eles desenvolveram atitudes “americanas” normais para com esses ícones misteriosamente poderosos. A Pirâmide dos Illuminati, que vem impressa nas notas de um dólar, e similares emblemas “mágicos”, como a Fleur de Lys, a suástica, a águia bicéfala, estrelas, luas, sóis, etc., com que outras nações acharam por bem decorar as suas notas e documentos de estado, são intrínsecos à “fantasmagoria” do monopólio que o Estado detém sobre o maná, ou energia psíquica. Temos aqui dois pedaços de papel verde; um é dinheiro, o outro não. A diferença é o primeiro ter sido “abençoado” pelos feiticeiros do tesouro.

O trabalhador capitalista vive num estado de ansiedade perpétua, em tudo semelhante ao do viciado em opiáceos. Originalmente, a segurança da bio-sobrevivência, a neuroquímica da sensação de segurança, encontra-se sempre ligada a um poder externo. Esta cadeia condicionada dinheiro equivale a segurança, falta de dinheiro equivale a terror é reforçada sempre que vemos alguém ser “despedido” ou vivendo na miséria. Psicologicamente, este estado pode se caracterizar como paranóia clínica de baixo grau. Politicamente, a manifestação deste desequilíbrio neuroquímico é conhecida por Fascismo: a mentalidade Archie Bunker/Arnold Schickelgruber/Richard Nixon.

Como diz Leary, “A nossa vida social é agora dominada por restrições que o medo e a raiva impõem à liberdade (…). O medo e a violência restritiva podem tornar-se prazeres viciantes, reforçados por dirigentes esquizofrênicos e um sistema econômico que depende da restrição da liberdade, da produção de medo e do incitamento ao comportamento violento”.

Na metáfora perfeita de Desmond Morris, o macaco nu comporta-se tal qual um animal de zoológico: a essência da experiência da jaula é o desespero. No nosso caso, as grades da jaula são as intangíveis regras impressas no jogo: os “grilhões forjados pela mente” de Blake. Somos literalmente o ceguinho que está a ser roubado. Abandonamos literalmente os nossos sentidos. O ícone incondicional, o dinheiro-símbolo, controla totalmente o nosso bem estar mental.

Era aparentemente isto o que Norman O. Brown tentava explicar nas suas obras oculto-freudianas sobre a destruição da nossa “natureza polimorfa” (o êxtase natural do corpo) no processo de condicionamento do sexo sublimado (os laços de bando) em jogos sociais como o dinheiro. A Ressurreição do Corpo prevista por Brown só poderá acontecer através da mutação neurossomática, ou, como lhe chama Leary, engenharia hedônica. Historicamente, os únicos grupos que lograram libertar-se efetivamente da ansiedade do jogo social foram: 1) as aristocracias absolutamente seguras, livres para explorar os vários prazeres “mentais” e “físicos”; e 2) as comunas de pobreza voluntária, uma forma de retribalização alcançada através da pura força de vontade.

À semelhança dos outros idealistas de Esquerda e de Direita, os libertários sofrem geralmente de uma dolorosa percepção do horrendo fosso que separa os seus objetivos evolucionários da presente e triste realidade. Esta sensação complica enormemente a resolução da sua própria síndrome de ansiedade monetária. Como resultado, virtualmente todas essas pessoas sentem uma culpa intensa relativa ao modo como adquirem o dinheiro necessário para sobreviver no mundo de macacos domesticados que nos rodeia.

“Ele se vendeu”, “Ela se vendeu”, “Eu me vendi”, são acusações ouvidas diariamente em todas os grupos idealistas.

Qualquer processo de “fazer dinheiro” expõe-nos automaticamente às vibrações culpabilizantes de uma das facções, da mesma forma que, paradoxalmente, nos livra de mais vibrações culpabilizantes oriundas da outra facção. O Catch-22, a Ligação Dupla, O Princípio SNAFU, etc. não passam de extensões da ratoeira neuroeconômica básica: Não É Possível Viver Sem Dinheiro.

Como concluiu Joseph Labadie, “A pobreza transforma-nos a todos em covardes”.

Em última análise, existe um certo prazer em suportar a pobreza. É como o prazer de sobreviver ao desgosto e luto causados pela morte de um ente querido; o prazer que sentia Hemingway em manter-se firme e continuar a disparar sobre o leão que carregava; o prazer que sente o santo em perdoar aos seus perseguidores. Não se trata de masoquismo mas sim de orgulho: fui mais forte do julgava possível. “Não chorei nem desatei aos gritos”. Foi esta a alegria sentida por Nietszche e Gurdjieff ao ignorarem as suas doenças dolorosas para só escreverem sobre os estados “despertos”, ultrapassando todos os laços e emoções.

A paranóia direitista sobre o dinheiro de papel (as várias teorias conspiratórias sobre a manipulação da oferta e a retirada de moeda) será sempre epidêmica nas sociedades capitalistas. Os junkies nutrem mitos do gênero sobre os traficantes.

São alimentos autênticos, roupas autênticas e abrigos autênticos que são ameaçados quando o dinheiro é suprimido, ainda que por pouco tempo, assim como é autêntica a privação que ocorre quando o dinheiro é suprimido durante qualquer período de tempo. O macaco domesticado é apanhado num jogo de símbolos mentais, e a armadilha é mortal

Existe uma espécie de prazer masoquista em analisar um assunto doloroso em profundidade, em todas as ramificações e complexidades dos seus labirínticos tormentos. Existe algo deste gênero subjacente à “objetividade” de Marx, Veblen, Freud, Brooks, Adams. Estes autores parecem querer assegurar-nos, e a si próprios também, que “Por pior que a coisa seja, pelo menos conseguimos enfrenta-la sem gritar”.

Só aqueles que beberam da mesma taça nos conhecem”, disse Solzhenitsyn. Referia-se à prisão e não à pobreza, mas as duas experiências assemelham-se enquanto castigos tradicionais para a dissidência. Enchemo-nos de orgulho por havermos conseguido suportá-los, caso consigamos sobreviver.

Uma crença muito difundida sugere que a contracultura dos anos 60 foi espancada até a morte pelos bastões da polícia, rusgas antidroga e outros tipos de violência direta. A minha impressão é que a deixaram simplesmente morrer de fome. O fluxo de dinheiro foi cortado e, após privações suficientes, os sobreviventes treparam no primeiro salva-vidas capitalista que passou por perto.

Jack London escreveu que o capitalismo tem o seu próprio céu (a riqueza) e o seu próprio inferno (a pobreza). “E o inferno é bem verdadeiro”, escreveu, baseando-se na sua amarga experiência pessoal.

Se, na melhor das hipóteses, a paternidade é uma tarefa problemática, então no capitalismo ela se torna um trabalho de herói. Actualmente, quando o fluxo de dinheiro é cortado, o pai de família americano experimenta ansiedade múltipla: medo por si e medo pelos que o amam e nele confiam. Só o capitão de um navio que naufraga conhece esta vertigem, esta chaga.

Sobreviver ao terror constitui a essência da verdadeira Iniciação. Porque os que vivem mais felizes são os que mais perdoaram e, como disse Nietszche, aquilo que não me mata, me torna mais forte.

Publicado originalmente no boletim No Governor.

Tradução de Luís Torres Fontes

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